Trégua comercial entre as duas potências prevê lista extensa de produtos, mas abrange apenas uma fração dos US$ 415 bilhões em produtos importados de ambos os lados. Soja fica de fora
Os Estados Unidos e a China detalharam um plano para reduzir as tarifas sobre cerca de US$ 30 bilhões em importações de cada país, dando um passo para cumprir um dos principais resultados da cúpula da semana passada entre Donald Trump e Xi Jinping.

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A redução das tarifas abrangerá brinquedos, utensílios de cozinha e outros produtos domésticos chineses, além de produtos agrícolas, carvão e equipamentos médicos dos EUA. A maior parte desses produtos ficará livre das tarifas adicionais impostas durante anos de tensões comerciais, enquanto as duas superpotências rivais buscam estabilizar suas relações.
Cerca de 90% dos produtos abrangidos passariam a receber tratamento de nação mais favorecida (NMF), informou o Ministério do Comércio da China em um comunicado divulgado nesta segunda-feira. As reduções entrarão em vigor assim que os dois lados concluírem os procedimentos exigidos por suas respectivas legislações nacionais.
“Esse acordo ajudará a estabilizar ainda mais as relações econômicas e comerciais entre China e EUA e criará condições favoráveis para as exportações chinesas dos produtos relevantes para os Estados Unidos”, afirmou o ministério.
A redução esperada das tarifas sobre US$ 60 bilhões em comércio bilateral foi um dos resultados mais concretos da visita de Estado de Xi Jinping a Washington, embora o valor represente uma fração dos US$ 415 bilhões em bens comercializados entre as duas maiores economias do mundo no ano passado.
Para os consumidores americanos, tarifas de importação mais baixas sobre brinquedos, artigos de decoração para as festas de fim de ano e outros produtos podem ajudar a conter os preços antes da temporada de compras de fim de ano.
Para a China, a redução das tarifas americanas pode dar suporte às exportações em um momento em que a fraca demanda doméstica e o excesso de capacidade industrial têm levado os fabricantes a buscar mais vendas no exterior.

As ações de algumas fabricantes chinesas de eletrodomésticos subiram após a divulgação dos detalhes dos cortes tarifários. A Joyoung avançou 10%, atingindo o limite máximo de alta em Shenzhen, enquanto a Bear Electric Appliance chegou a subir 9,5%.
Os dois lados estenderam a trégua comercial até janeiro, enquanto negociam um acordo mais amplo antes de outras duas reuniões esperadas entre Trump e Xi neste ano. Com as principais divergências sobre controles de exportação e Taiwan ainda sem solução, o comércio de produtos não sensíveis surgiu como uma área em que acordos ainda são possíveis.
O plano tarifário foi negociado no âmbito do Board of Trade, um mecanismo de governo a governo anunciado inicialmente após a visita de Trump a Pequim, em maio. A estrutura entrou oficialmente em funcionamento após a visita de Xi a Washington.
A proposta dos EUA abrange 77 categorias de produtos, incluindo fogos de artifício, artigos para o lar e equipamentos esportivos. A lista da China é mais ampla, abrangendo 1.619 itens, entre eles carne, frutos do mar, laticínios, grãos, carvão, madeira e equipamentos médicos, segundo documentos publicados pelos dois governos.
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O acordo para isentar de tarifas US$ 30 bilhões em produtos não sensíveis de cada lado demonstra tanto a utilidade quanto as limitações do novo mecanismo, afirmou Chang Shu, economista-chefe para a Ásia da Bloomberg Economics.
— Embora esses produtos recebam um tratamento tarifário favorável — um claro sinal de boa vontade diplomática —, a escala macroeconômica é insignificante —disse Shu. —A composição dos produtos ‘não sensíveis’ é fortemente delimitada, restringindo-se principalmente a produtos agrícolas e dispositivos médicos nas exportações dos EUA, e a bens de consumo de baixo valor nas exportações chinesas.
A meta de US$ 30 bilhões é baseada no comércio de 2024. Os produtos chineses abrangidos pelo plano dos EUA representaram US$ 32,3 bilhões em importações naquele ano, antes de esse valor cair para US$ 23,2 bilhões em 2025, em meio a uma nova escalada da guerra tarifária.
Os produtos americanos abrangidos pelo plano da China caíram de US$ 29,7 bilhões para US$ 19,3 bilhões no mesmo período, enquanto Pequim respondia com medidas recíprocas.
A soja está notavelmente ausente da proposta de redução de tarifas, embora Pequim tenha se comprometido separadamente a comprar 25 milhões de toneladas de soja dos EUA por ano até 2028.
Colocar as compras de soja em uma negociação separada, fora do Board of Trade, dá a Pequim margem para conter ações dos EUA, especialmente antes das eleições de meio de mandato em novembro, afirmou Feng Chucheng, sócio fundador da Hutong Research, com sede em Pequim.
— Pequim sabe muito bem que a compra de soja terá um impacto direto sobre os estados agrícolas dos EUA, que formam a base eleitoral de Trump — disse Feng.
O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, descreveu os produtos selecionados como bens não sensíveis que poderiam se qualificar para um tratamento tarifário mais favorável. Segundo ele, as recomendações melhorariam o acesso de produtos agrícolas e dispositivos médicos americanos ao mercado chinês, ao mesmo tempo em que reduziriam as barreiras para produtos domésticos e brinquedos chineses.
— O presidente Trump está ampliando o acesso ao mercado para cerca de 30% das exportações dos EUA para a China, ao mesmo tempo em que beneficia os consumidores com importações chinesas de artigos domésticos, brinquedos e outros produtos que os Estados Unidos, em geral, não importam de outros países —disse Greer.
O carvão importado dos EUA será incluído no acordo, o que, segundo Pequim, dará suporte às compras chinesas em 2027 e 2028. A Casa Branca havia informado anteriormente que a China concordou em importar pelo menos 10 milhões de toneladas métricas de carvão dos EUA no próximo ano e novamente em 2028.
Entre os produtos agrícolas que terão redução de tarifas estão grãos importantes, como trigo, milho e sorgo. Isso pode ajudar a China a avançar em direção à meta de comprar pelo menos US$ 17 bilhões em produtos agrícolas americanos por ano até 2028, além do compromisso de compra de soja.
O progresso em direção à meta de US$ 17 bilhões tem sido lento desde que ela foi anunciada pelo governo Trump após a última cúpula entre os líderes, em maio. Operadores do mercado esperavam que possíveis cortes tarifários decorrentes da reunião em Washington, D.C., estimulassem uma nova onda de compras.
Um novo Grupo de Trabalho Agrícola será criado entre os dois países após a cúpula, segundo o Ministério do Comércio da China. A primeira reunião está prevista para ocorrer até o fim de 2026.
Por Bloomberg — Washington


