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terça-feira, junho 25, 2024

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O Brasil e a guerra na Ucrânia

A guerra na Ucrânia vai muito além da dimensão militar. O próprio desenvolvimento desse conflito permite refletir sobre a natureza e as tendências da guerra contemporânea e projeta-las para o futuro. Podemos dizer que mais do que nunca a guerra não guerra ou a dimensão não militar do conflito se reveste de tanta importância quanto o engajamento bélico entre as partes em conflito.

Nessa guerra, destaca-se em especial duas dimensões em que o conflito é travado: uma relacionada à natureza informacional e de propaganda, e outra relativa a guerra econômica por meio de sanções impostas à Rússia em especial pelos países do G7.

No primeiro caso destaca-se a guerra de narrativas, um velho lugar comum no que diz respeito a guerra – a ideia de que na guerra a primeira vítima e a informação – torna-se ainda mais verdadeiro com a instantaneidade da informação possibilitada pelo advento das redes sociais em escala global.

Aliás, o uso de celular na frente de batalha, em especial da plataforma TikTok, pelos soldados ucranianos tem sido uma das vedetes da atual guerra. Ressalte-se ainda, na chamada guerra de narrativas, a grande mobilização dos conglomerados de comunicação americano e europeu em torno da narrativa ucraniana e do presidente da Ucrânia.

A outra frente central e a da guerra econômica, considerada pela OTAN o instrumento principal para derrotar a Rússia.

A guerra econômica teria potencial até mesmo de contrabalançar a assimetria de poder entre as forças russas e ucranianas tendo em vista a impossibilidade de engajamento direto das forças norte-atlânticas.

A Rússia viu após o início do conflito uma elevação a níveis sem precedentes das penalidades de natureza econômica. Pode-se dizer que se buscou uma exclusão da economia russa do sistema capitalista global, algo em nível superior ao que tinha sido endereçado ao Irã no governo Trump após a denúncia do acordo nuclear firmado por seu antecessor.

A atual guerra revelou um aprofundamento da crise da ordem internacional liberal, uma intensificação da crise da globalização e um novo ambiente geoestratégico global com aumento dos conflitos e dos gastos com defesa.

No caso russo, a sensibilidade relacionada a seu vasto território é histórica e recorrente sobretudo em sua porção siberiana e asiática. Desde o fim da guerra fria a Rússia sofre assédio sobre a sua zona de influência e a rigor em seu próprio território.

É falsa, desprovida de qualquer sentido geopolítico, a noção de que o mundo deixou de se organizar em torno de áreas de influência. Os eventos disruptivos dos últimos quinze anos explicitaram a natureza última do sistema internacional, isto é, sua natureza anárquica na qual as nações dependem delas mesmas para prover sua integridade e segurança, sobretudo as de grande território.

A guerra deflagrou problema de oferta sobretudo em energia, alimentos e fertilizantes que afeta o Brasil. A consequência tem sido a eclosão de um surto inflacionário global que também nos atinge de forma pronunciada.

Para combater esse surto os bancos centrais, inclusive no Brasil, deflagraram um aumento nas taxas de juros retroalimentando a carestia com risco iminente de recessão e estagflação desestabilizando as economias dos países em desenvolvimento.

Diante dessa crise de oferta, surto inflacionário, aumento das taxas de juros, carestia e recessão a consequência seguinte desse encadeamento será o aumento da instabilidade polícia, econômica e social pelo mundo em 2023.

No horizonte, a crise explícita os limites do ativismo do G7 no que denominam de luta contra as autocracias numa espécie de reedição da guerra fria agora das democracias contra as tiranias na narrativa liberal norte- atlântica.

Em síntese a guerra na Ucrânia colocou no centro uma geopolítica dos recursos. Trata-se de questão de grande interesse do Brasil como potência energética e alimentar. As alterações no balanço de forças entre as potências, que definem um mundo em transformação, poderão resultar em distintas conformações em seu desfecho: um mundo multipolar com vários polos de poder; uma nova potência ou um novo bloco hegemônico ou então a reafirmação da posição hegemônica dos Estados Unidos.

Em síntese, este é o grande jogo que se trava no mundo contemporâneo. No Brasil urge atualizar a percepção sobre a natureza que adquire a guerra moderna, num esforço de pensamento de múltiplos centros voltados ao pensamento estratégico.

O mundo também nos ensina que não podemos abrir mão de um forte parque industrial especialmente depois de quatro anos de desindustrialização.

O ativismo industrialista, que hoje mobiliza as principais potências, deve ser por nós estudado e servir de base para a formulação de uma própria estratégia de política industrial ancorada na inovação. Esse é um imperativo da época, ao qual não cabem objeções ideológicas como as que temos observado no Brasil nos últimos anos, mas não nas experiências internacionais.

Trata-se de ter centro numa estratégia de reindustrialização nacional em linha com as melhores práticas que se observam no mundo. Há que se considerar que o movimento de reorganização das cadeias de produção e de valor no mundo abre espaço para esse projeto nacional de reindustrialização. Os recursos brasileiros devem servir e ser parte de um projeto geopolítico que potencialize a nossa reindustrialização como objetiva o atual governo.

O pior cenário seria o de franquearmos a outros países o livre acesso a nossos recursos sem ser parte de uma equação estratégica mais sofisticada por parte do Estado brasileiro. Assim, precisamos tratar da necessidade de aproveitarmos nossos fatores de força e de mitigar nossas vulnerabilidades. Dentre os fatores de força evidentes do Brasil estão nossa capacidade de produção de alimentos, nosso potencial energético e nossos recursos naturais, especialmente os ambientais.

Compreender o grande jogo geopolítico que se trava em torno da questão ambiental e ter consciência que, sim, existe uma geopolítica da energia e dos alimentos são lições que urgem ser extraídas do atual cenário internacional com a guerra na Ucrânia.

IG NOTÍCIAS

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